sexta-feira, 23 de abril de 2010


PALAVRA DE TOQUE

Fui-te deixando pistas,
em palavras derramadas,
uma a uma,
nos concilios suspensos
das tuas indiferenças.
De todas elas, desdenhavas o peso,
mal-calculavas o valor,
e assim as ias atirando,
como pedras imponderáveis,
ao charco estagnado do teu desprezo.
Os teus gestos,
pouco a pouco,
mecanizaram a rotina,
desvalorizaram o poder do toque,
traíram o reconhecimento
e banalizaram a resposta.
Quando eu te atirei a palavra
-a palavra de toque-
o ritmo que havias imposto à reacção,
não te permitiu reconhecê-la.
E lançaste-a borda fora de nós mesmos,
em total desconsideração de sentido.
Só quando me viste emergir com ela,
renascer dela
-da palavra de toque-
me choraste a perdição-
e te afundaste.

terça-feira, 20 de abril de 2010

MEDO
Se o medo vier, que seja corcel
De invisível porte e de amável brio,
Que me seja fuga, e não desafio,
Porque à própria vida me quero fiel!

Além do temor, acima dos ventos,
Solto-me amazona de heróicos sonhos,
E nem chispas d'olhos ou cerrar de punhos
Me fazem perder dos meus sentimentos!

Se o medo vier, mais alto e mais forte
Do que eu, esmagada nas rodas dentadas
Que rangem murmúrios de antigas dores...

Que seja eu mais nobre que a mísera sorte
De quem se armadilha com forças roubadas
Porque de si próprio não colhe valores!