terça-feira, 26 de outubro de 2010

SEMEADOR


SEMEADOR


Se me cercas cultivando,
Semeias beijos dispersos
Na minha pele que se abre
Em colheitas aflorando.
E toda flor me tornando,
Dou-me às mãos do semeador
Na terra a cheirar a fresco
Que o amor vai cortejando
Ao revolver do arado.
E assim jardim me sentindo,
O meu rosto colorindo,
Guardo em promessa o labor
Nos sulcos do teu amor
No meu ventre cultivado:
À flor da pele me colheste.
A fundo me semeaste.

sábado, 9 de outubro de 2010

PROXIMIDADES

Dentro de ti
há um espaço vazio
que já foi rio
onde mergulhei.
Agora
vagueio à tona,
e a pele não emociona
como a alma que toquei!
Que adianta abraçar-te,
que adianta roçar-te
a fímbria do areal,
se não consigo alcançar-te,
se não consigo beijar-te
a matéria nucleal...?



quinta-feira, 26 de agosto de 2010

DE BEIJO A NÓS


Beijo e breve teu passar
no horizonte meus olhos,
e o orvalho tão fresco,
beijo e leve…

Flor e moça fui manhã,
na brisa que me envolveste,
e o descobrir do sorriso
flor e doce,

Toque e terno me subiste,
no querer da luz o dia,
e o saber do amor o risco,
toque e morno.

Ave e presa a minha mão
me prendeste flor colhida,
e o voar do meu peito
ave e brisa.

Sol e desejo teu brilho,
na colina do meu corpo
te ascendeste a tarde quente,
sol e aceso

Amor e foz o meu ventre,
teu ocaso inteiro e nosso
semeando sob estrelas…
Dor e nós.

terça-feira, 17 de agosto de 2010


Je t'aime, moi non plus

Gosto quando me desces,
rio sem margens,
até à foz que mereces,
no penetrar que te fazes
abordagem

Gosto quando te domo,
leme aceso,
convés onde me assomes
corsário que eu advogo
indefeso

Gosto quando me desvendas
vela breve,
do capricho do teu vento
até à espuma que um beijo
te susteve

Gosto assim, quando e sempre
me mergulhas,
em metáfora ardente
da seda com que me cobres
e me olhas...

segunda-feira, 16 de agosto de 2010


Petits plaisirs

Gosto quando me roças
em descuido
de intencionado desejo,
no esboço breve de um beijo
pressentido

Gosto quando te provoco,
olhar limpo,
revelando à transparência
a malícia da inocência
que desminto

Gosto do ar que te cerca
denso e quente
prenúncio de pressão alta,
que preenche o que me falta
e me ascende

Gosto assim, discreto e todo
coração,
risco azul, asa tão pouca,
beijo no canto da boca,
emoção...

sexta-feira, 18 de junho de 2010


FIM


Preciso calar
Este amor que grita
Dentro da saudade
Que me abriu o peito...

Preciso colar
Os cacos dispersos
Dos sonhos perdidos
Onde tropecei...

Resta-me o calor
Doce das memórias,
Nem sempre há um beijo
No fim das histórias...

(...de amor?...)

segunda-feira, 24 de maio de 2010


PERFUME

O perfume que deixas
desenha no vento
um sentido único,
lúbrico,
que vem envolver-me
em espiral de abraço,
ritual de sedução,
e me ensina no espaço
o poder físico dos corpos
em atracção.

sexta-feira, 23 de abril de 2010


PALAVRA DE TOQUE

Fui-te deixando pistas,
em palavras derramadas,
uma a uma,
nos concilios suspensos
das tuas indiferenças.
De todas elas, desdenhavas o peso,
mal-calculavas o valor,
e assim as ias atirando,
como pedras imponderáveis,
ao charco estagnado do teu desprezo.
Os teus gestos,
pouco a pouco,
mecanizaram a rotina,
desvalorizaram o poder do toque,
traíram o reconhecimento
e banalizaram a resposta.
Quando eu te atirei a palavra
-a palavra de toque-
o ritmo que havias imposto à reacção,
não te permitiu reconhecê-la.
E lançaste-a borda fora de nós mesmos,
em total desconsideração de sentido.
Só quando me viste emergir com ela,
renascer dela
-da palavra de toque-
me choraste a perdição-
e te afundaste.

terça-feira, 20 de abril de 2010

MEDO
Se o medo vier, que seja corcel
De invisível porte e de amável brio,
Que me seja fuga, e não desafio,
Porque à própria vida me quero fiel!

Além do temor, acima dos ventos,
Solto-me amazona de heróicos sonhos,
E nem chispas d'olhos ou cerrar de punhos
Me fazem perder dos meus sentimentos!

Se o medo vier, mais alto e mais forte
Do que eu, esmagada nas rodas dentadas
Que rangem murmúrios de antigas dores...

Que seja eu mais nobre que a mísera sorte
De quem se armadilha com forças roubadas
Porque de si próprio não colhe valores!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010


COMO UMA LÁGRIMA...


Como uma lágrima, nosso amor nasceu,

Trémulo, nos olhos, brilho e emoção,

Tímido, tacteando, nosso amor desceu,

Orvalhou de fresco o rubor da paixão.


Como uma lágrima, caindo, fluída,

Nosso amor tocou os lábios em desejo,

Molhou-os da sede no olhar nascida,

Fez-se toque breve, veludo e beijo.


Como uma lágrima, nosso amor molhou

Nossos corpos nus, em searas e sol

E ondulou vagas, suor e sentidos.


Como uma lágrima, nosso amor secou,

Restaram vestígios de sal no lençol,

Na alma a saudade de rios perdidos...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010


CONFESSO QUE NÃO VIVI!


Confesso que não vivi!
Em remissão, aqui me curvo,
Genuflexo nas águas turvas
E esqueço o que submergi
(por quê ver os resíduos do fundo?...),
Não me cura o que eu já sofri!...


Confesso que não vivi...
Algemei-me em medos impuros,
Vendi-me por tréguas seguras
(e nem foi da dor que fugi!...),
Condenada a instantes vorazes
A paz foi-me só álibi!


Confesso,


Confesso que não vivi...
Não arrisquei sequer ser feliz
Não ousei ser meretriz,
Não matei nem reagi...
(peco só por acusada
de culpas que não cumpri!...)

Pecadora, me confesso,
Do crime que cometi:
Ter tido como carrasco
A vida que não vivi!...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010


MAL-BEM-ME-QUER


Vieste incerto,
na dúvida do amor
que o vento levou...
(e eu tão perto!...)

Passaste e o canto
que te chamou,
trouxe, indeciso,
o certo encanto
que eu preciso...
Já não vens cedo,
mas nas minhas pétalas
resta ainda cor...
(não tenhas medo!...)
Vens devagar,
com as mãos em gesto
de me colher
e desfolhar
um malmequer...
E se eu tiver
De sacrificar-me,
pétala por pétala...
(mal-bem-me-quer...)

Que seja assim,
Pra te provar
Que o amor existe
Além do esgar
Onde te feriste...

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

FLOR DE PAIXÃO




Vem...

Desfolha-me


Assim,

Pétala por pétala,


Lança

Ao vento o depois,

Agora


É tempo de nós os dois...




Vem...

Despoja-me


Sem pudor

Das minhas sépalas,

Toma


O que resta de meu.

Enfim,

Sou teu fértil gineceu...