sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

RUÍNAS



Serve-se do grito, a dor que me agarra,
Serve-me o destino, esta sina em garra
Que me tolhe o gesto da brisa que beijo
No esperar da pele que entre-cílios vejo...

Sirvo-me em pedaços ao algoz do Tempo
Sirvo-me da fé que colho no templo
Jacente em ruínas que escolhi por fado...

-E não sei se é gótico o portal tombado...

Sei que verto ainda do peito dorido
Gotas que são sangue salgado e mantido
Em vasos de esperança que ao alto ergo...

-E que afasto de mim, num gesto em repulsa...


-Que espero ainda, se me deforma a culpa
De só ver punhais nos olhares que enxergo?!...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

MÁSCARA



Eu sei...
da mentira, o gume
que me corta os lábios
da verdade oclusa.

Eu sei...
da verdade oculta
que me trai o beijo
por moedas falsas.

E vou,
relegando a vida,
relevando a dor...

morro,
em verdade,
um sorriso ao dia...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

BEIJO DO SILÊNCIO

Há gritos que me cercam,
Sitiantes,
Sinistros,
Fustigando ventos
Que se compadecem
Da minha pele salgada
Pela sede de chuva,
Pelo apetite do mel.
Cai-me um sol a pique
Nos lábios gretados
Por um sorriso posto
A cravos e espinhos
Na estilizada cruz
Que me sombreia os olhos
E me rasga as narinas
Em sopro asfixiante…
Ruídos ribombam,
Intrusos,
Obtusos,
Confundem-me os traços,
Aturdem-me os sonhos
De sempre perdidos,
De agora exigidos…

Beija-me, silêncio,
Que quero voltar
Ao útero
Da inocência…

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

JOGO DUPLO

Com o olhar nú e aceso,
enfeitiças-me os sentidos,
passas em mim só miragem,
eco só dos meus gemidos.

Torturas-me, em rito sábio,
ao sabor do teu desejo,
matas-me em sede, de sede,
por gosto a jogo e cortejo.

E quando a mesa se vira,
o trunfo é meu e o céu nosso
e o teu corpo é um abraço...

A boca em beijo delira,
saber dizer já não posso
que me fazes, que te faço...

sábado, 25 de julho de 2009

ALÉM-AMOR


Além-amor me achei e perdi contigo,
Em paixão nascida de dias ardentes,
Orvalhados a sal e suores trementes
E miragens breves de tão doce abrigo...

Além-mar em nós, aberto e longínquo,
Fui frágil batel, estremecido em vagas
De ir e voltar, descoberta e sagas,
Seara e colheita de verão profícuo...

Limbo e ninho era o oásis breve,
Onde o nosso amor se banhava a aromas,
Frutos proibidos, sãos e apetecidos!

Nimbo e vinho era o toque rubi leve
Dos beijos impressos que eram sintomas
De lautos sentidos de amor perdidos...

Achados que fomos, além-nós partidos...

quinta-feira, 28 de maio de 2009

SONETO EM DELÍRIO

Verso-te o delírio das palavras
Em estrofes que me deito sobre ti,
Declamas-me suspiros que me lavras,
Declinas-me a bel prazer do teu ardil...

Faz-me, amor, contigo, una e intensa,
Sede de absorver-te a essência única,
Recital meu, paixão de bem-querença,
Eis-me, vê-me em transparência e túnica
De amar-te, crente e entrega, inteira e tua.

Rima-me contigo, verso e inverso,
Meço-te, a língua e tacto, sílabas doces,
Esquece que a noite cresce, da Terra à Lua...

Assina-me com tua pena, doa-me um verso,
Amor, herói de mim, quem dera fosses!

AMOR DE LONGE, DIZ-ME

Amor, meu amor, de longe aceno,
Por entre as grades frias do meu dia,
Que avaro e curto se faz, por tirania,
Deixando-me, na boca, agro veneno

Com gosto da saudade ciumenta
Que me toma, me condena à tua ausência...
E o coração morre a pulsar, em carência
De teus beijos, e do amor que me alimenta...

Amor, meu amor, de longe diz-me,
Se teu amor é forte caravela
Que resista às tormentas caprichosas,

Pois por mais que a paixão nos aproxime,
De tanto mar é feita nossa procela,
Que só de teu apelo eu colho rosas!

LEMBRAS-TE, AMOR?...

Amor...
lembras ainda,
a tarde que nos uniu,
a janela que nos viu
escolher a mesma flor?
Lembras-te ainda,
das palavras que não houve,
das carícias que não soube
e me ensinaste a sentir?
Lembras-te, amor,
a fogueira que acendemos
como quem descobre o fogo
nos primórdios da ilusão?
Ainda lembras
do beijo que me pediste
e do rubor que colheste
do meu rosto em tua mão?
Lembras-te?...
Da minha rosa em botão?...
Amor...
Lembras ainda
do meu sabor de menina??....

THE KISS WE DIDN'T HAVE

So long ago...
My one-day love,
You held my hand,
Our hearts above
The goodbye strand...

Too far to go...
My eyes in yours,
Your smiles in mine,
So many doors
Shutting our shine...

Too shy to show...
Our blooming love,
The unsaid words,
The swallowed sob,
The passion swords...

But I know so...
The kiss we missed
Would be the sweetest
Under the mist
Of shiny sturdust...

So bright a glow...
Among the stars
We lost our dreams,
Remained the scars
On our streams..

The past is now...
The kiss we had
Was made in Eden,
Ever so sad
For not being given...

Apart we flow...

O BEIJO QUE NÃO TIVEMOS

(Tradução livre do poema "The kiss we didn't have...")
...A saudade que mais nos dói é a dos momentos que não vivemos...

Há tanto tempo...
Meu amor de um dia,
Mãos em abraço,
Coração que queria
O adeus esparso...

Tanto advento...
Meu olhar no teu,
Teu, meu sorriso,
No azul de céu
Nosso paraíso...

Timidamente...
Nosso amor floriu
No silêncio doce
Do toque macio
Da paixão precoce...

Em sentimento...
Soube que o beijo
Que não te daria
Seria o desejo
Em pura alquimia...

Um só momento...
E as estrelas
São testemunhas,
Só fomos velas
Órfãs de escunas...

Soprou o vento...
Levou o beijo...
Trouxe o presente,
Em eterno adejo
Dum amor nascente...

...Da foz descrente...

AMIZADE

Há tantas maneiras de se dizer "bom dia!"...Ontem o meu dia foi melhor... porque saudado por este belo cantar d'amigo...

(Poema de Jose Ribeiro Zito)

Amiga!
Sei apenas que estou aqui,
Vestido com brilho de ternura,
De corpo inteiro para te escutar,
Com o sol postos nos olhos
E sem a mais leve ponta de censura.
Compreender que o teu céu
Também pode ser vermelho
Quando o meu é nitidamente azul
E que o sol pode ter
Se assim tu o quiseres
O tom das cores que lhe puseres
Com o pincel da imaginação
E que a lua pode rolar na rua
Rodada no teu coração.

Escutar-te como se o tempo
De repente parasse pra descansar
Numa pausa que não desse conta
Que o ponteiro sentado
Parou de rodar compassado
E como uma nuvem te envolveu
Ternamente a contar as estrelas
Como um sonho de anjo
A soprar e a acendê-las.
Escutar-te como se a tua dor
Fosse do tamanho do universo
E partilhado me tivesse trespassado
Com uma lança de saber
Que a tua angústia foi ampliada
Como a maior de todas as dores
Para eu te fazer um verso
Em que as rimas são os teus amores.
Escutar-te apenas com o coração
Como se o teu silêncio
Fosse o maior de todos os gritos
E a tua infiltrada solidão
Fosse o universo da presença
Dos teus sonhos mais bonitos.
Escutar-te apenas!
Sem mais escutar-te
Como se a tua chegada alegria
Não coubesse neste mundo
Ou se a tua orientação andasse à toa
E nunca fosse ao fundo.
Escutar-te apenas
No teu coração que ressoa
Mesmo longe, mas a teu lado,
Com tudo o que sou
Naquilo que és
Sem vaidade nem penas
Apenas como pessoa boa.


Zito

(Obrigada, amigo...)

TEAR DE POESIA



QUE ACONTECE QUANDO TE VEJO?...
SINTO O CÉU DENTRO DE MIM,
Ouço harpas em delírios.
SEUS OLHOS,
lagos de luz,
MANANCIAL DE DESEJOS,
onde flutuam nenúfares
em reflexos de trémulos círios,
tímidos, na languidez da brisa,
QUE EVAPORA FRAGRÂNCIAS
na seiva dos meus anseios.
CHOVE EM MIM...
Que acontece quando te beijo?
O céu muda de lugar,
vem pra dentro do meu peito...
o meu coração é o Sol,
o meu desejo, a brisa,
e a Terra...
o nosso leito...

(MARCOS OLIVEIRA) (Tera Sá)

ECOS DE SILÊNCIO (Texturas a quatro mãos)

ACIMA DO SILÊNCIO... ...ecos de silêncio

SEU OLHAR NÃO É FEITO DE SILÊNCIO,
ELE É FEITO UM CÉU,
INVADINDO UMA MANHÃ.
Seu olhar é feito de sussurros,
é tocado de claridade e lã...
COMO OS SONS DOS PÁSSAROS E NASCENTES,
como carícias de frescos orientes,
SEU OLHAR TEM AROMA,
UM HÁLITO DE PRIMAVERA,
tem bater de asas de brisas
e buquê de quimeras.
E QUANDO IMITA A NOITE
e me fecha no seu círculo,
A MAIS PERFEITA LUA
SE CONFUNDE COM SEU BRILHO,
se mistura, sibilante,
e o mundo é murmúrio ausente.
SEU OLHAR ESTÁ ACIMA DO SILÊNCIO,
ACIMA DO HORIZONTE...
NAS CERCANIAS DA MINHA POESIA...
E nas ameias do nosso Éden, amor,
o amor se recria...

(MARCOS OLIVEIRA) & (Tera Sá)

SEDUÇÃO (Outro momento)

O teu toque, quente e beijo,
Quando roças meu descuido,
É onda de choque, ensejo,
De amor, afago e lânguido...

Rendo o olhar, solto e desejo,
Abandono as mãos, são tuas,
Tons de rosa, cor lampejo,
Trémulos cílios, faluas.

Tanto mar, aberto e brejo!
Tanto tempo a separar!,
A tua boca, subtil cortejo,
Dos meus lábios, sede e amar!

E a tormenta, intrusa e adejo
D'olhares caças vis e fossos,
Minam a praia que bordejo,
E os beijos... são só esboços...

MUDEI A CHAVE AO AMOR

Não sei que diga ao Amor, se ele voltar,
Se tu voltares vais encontrar só indiferença,
E a diferença que o Amor me quiser mostrar,
Amostra é do abismo entre fé e crença.

Se o Amor voltar, nada será como dantes,
Antes de tudo, amor, eu vou querer ser gente,
Gente que sente não pisa os restos errantes,
Errar é ser garimpeiro de sementes.

Se o Amor voltar, quero vê-lo à luz do dia,
Dias virão em que tu não terás noites,
E as noites que eu ao Amor der, serão só seda...

Se o Amor voltasse, puro e leal, que bom seria!
Bom será que além da porta não te afoites,
Afoita quero deixar entrar quem te suceda!

SIMPLICIDADE

Eu também gosto de...

POEMAS DE JOSÉ RIBEIRO ZITO
(bons demais para ficarem por desvendar!)

Há coisas que não entendo
Quando o poema se tranca
Nas portas estreitas do enigma.
Talvez por vergonha,
Talvez por presunçao,
Talvez por egoísmo,
Talvez por incapacidade de sonhar.
Decididamente não sou poeta
Das coisas por decifrar.
Gosto da água cristalina
Sem margens altas,
Sem tapumes nem buracos,
Sem correntes na corrente,
A subir descoberta,
Céu e lua em festa,
Sabendo que corre para o mar.
Gosto da rasura do gosto
Das palavras soltas,
Despidas, silenciosas, mas claras,
Como claro é o luar
Quando se despe em Agosto.
Gosto do poema cru,
Ao natural, límpido, pintado
Da cor viva dos sentidos
E de corpo inteiro, se pode dar,
Numa entrega sem limites.
Enigmas nos versos, não,
Pois os versos são para desfolhar
Na pele beliscada de raíz.
Na rasura do chão deitado,
O poema acorda e pode descolar,
Quando no restolho do sonho
Apanha as asas soltas
Com letras de clarear o céu.
E rasante, levantado do chão,
Não pára de subir,
E a subida não tem fim.
Há coisas que sempre entendo
Quando o poema rasga o mistério,
Abre as portas com palavras,
Palavras despidas de lixo,
Palavras desempoeiradas,
Palavras lavadas de ser,
Palavras sem rasuras de alma,
Palavras sem enganos dos sentidos.
Coisas que no poema
Convidam a entrar sem medos
De logros vestidos de sombras.
Na rasura do chão acordado,
O poema é apenas a brancura
Deitada em palavras de ternura.

(AUTOR - JOSÉ RIBEIRO ZITO)

BRISAS DE LUZ

(Para iluminar as curvas do meu caminho, o amigo ZITO, enviou-me, na brisa, este Poema...)

Luz,
Apaga as sombras
Antes que o rio se lance ao mar.
As ondas quebram a espuma
Com o sabor da brancura
Do sonho, a acordar.
É já tempo de partir,
É tempo de ficar.
(Eu agradeço, devolvendo-lhe a brisa, lavada por seu cantar...)

Brisa,
Seca-me o pranto
Antes que o meu grito se lance ao mar!
As ondas espumam raivas
Que é urgente aplacar!
Brisa,
Lava-me o riso,
Antes que impuros respirares
Maculem o orvalho que bebo
Em sonhos que são néctares
Do teu amar!

SEDUÇÃO

Esse olhar, lago e profundo
Onde queres afogar meus olhos,
É de amar profano e beijo,
É centelha, ateia fogos.

Tuas mãos, vento e abelhas,
Buscando o toque do pólen,
São sede, casta e carícia
Em fortuito cerco, malícia.

Tocas-me os olhos nos olhos,
Seda, o mel dos teus lábios,
Sou da tua boca presa...

Prendo o teu olhar no ar,
Quando o soltas, livre e azul,
Intenso, pirueta e pétala...

AMOR SEM ESTAÇÃO

Este amor que amordaço sem clemência
Detém-me refém dum sonho abortado
E por domar um silêncio tão forçado
Meu coração já não encontra a cadência.

Esse amor de fragrâncias maviosas
Dos teus olhos que me banham de calor
É sede que me não sacia a dor,
É brisa em asas-luz de mariposas.

Nosso amor é precoce Primavera
Que o Verão queima em ardências traiçoeiras,
Enquanto o Outono, em tons de mel, espera

Que o Inverno acenda carícias em fogueiras...
...e assim ardendo, em leito de quimeras,
Nosso amor é cinza de raras madeiras...

E DESSE OLHAR SE FEZ AMOR...

Ela era menina sem recreio,
que guardava mil brinquedos no olhar,
fingia-se de heroína sem freio
sem deixar transparecer o seu penar

de vida amarga, de golpes do destino,
força vã, sem coragem para ler
as entrelinhas do seu rio cristalino
onde enterrou a sua sede de viver.

Ele viu-a, para além do voo ausente
do olhar que, assustado, lhe fugia,
leu-lhe a alma, fez-se seu crente,
e dum sorriso desembrulhou alquimia.

Foi o doce afago da clareira,
onde o Sol desnudou o seu calor,
tocou-lhe a mão, soltou-lhe o anseio,
achou-lhe os olhos, à luz de um rubor...

... E assim, desse olhar, se fez amor...

RETROSPECTIVA

Recortei, em tempo-criança,
Um coração de papel,
E brinquei com a esperança
Dum amor sempre fiel.

De tanto andar junto ao peito
Do meu precoce namorado,
Acabou roto e desfeito,
Como o nosso ardor - apagado!

Escrevi, em tempo-ilusão,
Uma doce carta de amor,
E escondi do meu coração
A ameaça crua da dor.

Mas perdi-me nesse instante
Por não soltar o meu grito.
E a ferida, dilacerante,
Ainda hoje, em mim, a sinto!

Prendi-me, num tempo-jovem,
Numa teia de paixão carente,
E quis sonhar o meu homem
Sem ver seu fundo, de frente.

Deixei arrastar minh' alma
Na lama dum rio sem foz,
E só encontrei maré calma
No veludo da tua voz...

Senti, em tempo-efémero,
Sabor de terna comunhão,
O roçar de almas-gémeas,
No toque quente da tua mão.

Mas o fio do meu prumo
Feriu as cores do arco-íris,
E forcei o nosso rumo
Por entre as dores que não quis.

Olhei, em tempo-final,
As pegadas que deixei,
E vislumbrei um sinal
Do futuro que não sonhei...

O tesouro que amealhei
Parece ter novo brilho
Nas trevas que desflorei,
Ao desbravar meu caminho.

Guardo, no limiar do Tempo,
As riquezas partilhadas,
Das lágrimas que não lamento,
Das alegrias roubadas...

ENAMORADA DO DIA

Quisera ser eu eterna namorada
Do teu alado império que em mim ancora,
Desnudar-me, límpida, sob o véu d'aurora,
Em tom de mistério, vestir-me de fada!

Quisera ser eu tua ninfa sonhada,
Merecer a partilha de estrela cadente,
Que soluça, no breu, em queda iminente,
Por brilhar sozinha, em ânsia adiada!

Quisera ser eu brisa ascendente,
Metade da força que tuas mãos procuram,
P'ra impedir a queda que a Vida augura
À luz dessa estrela que só foi semente!

Quisera eu que a Noite tivesse sido, um dia...
...enamorada do Dia!

EU SOU TERRA, TU ÉS MAR

Meus olhos da cor do verde
De bosque em luz de Outono,
Desconheciam o azul
Profundo dos mares do sul
Onde teus olhos navegam...

Meus olhos só conheciam
Da água, a cor fugidia
Das lágrimas de chuva quente,
Só o orvalho ardente
De madrugadas de medo...

Quando teu olhar se fez praia,
Teu azul tocou meu bosque,
Alimentou as raízes,
Insinuou os deslizes,
Mas embateu em rochedos...

Dos meus enraizados medos,
Do nó das minhas raízes
No meu solo acidentado...

...Mas guardei sempre a beleza
Do por-do-sol em mar alto,
Dos teus olhos que beijaram
As praias do meu planalto...

OLHOS-NOS-OLHOS



Sou cativa dos teus olhos,
Porque neles me perdi,
E, por puro encantamento,
À escravidão sucumbi.

Porque insistes em olhar-me?
Porque te atraem meus olhos?
Porque me prendem teus olhos?
Porque não sei ignorar-te?

Não sei que força me prende,
Quando buscas meu olhar.
Quando encontro o teu olhar,
Todo o meu corpo se rende...

Teus olhos são sol nascente,
Quando nos meus é manhâ,
Quando os teus são amanhã,
Os meus são pura semente.

E se olhas para mim
Do outro lado do mundo,
Do lado de cá do mundo,
Meu rosto fica carmim.

Que força é esta que une
As chamas do teu olhar
À calma do meu olhar,
Em luta pra ser imune?

Não posso negar meu olhos
Aos teus, ávidos dos meus!
Os meus, áridos de mim,
Fulguram entre os escolhos...

Não posso negar este elo,
É tudo o que posso dar-te!
Tudo o que posso pedir-te
É discrição no duelo.

Não olhes pra mim assim!
Não vês que o brilho dos teus
Choca com o brilho dos meus,
E, em clamor de clarim,

Denunciam o segredo
Dos teus olhos maré-cheia,
Na minha praia de areia,
Onde o mar acorda cedo...

CONTIGO FARIA, AMOR

Contigo faria, amor,
A mais bela travessia,
Por entre as asas do vento...
E nas dunas do teu corpo,
Meu amor, renasceria.

Contigo faria, amor,
O desbravar do deserto...
E na sede dos teus beijos,
Desejaria um oásis
E descobriria o desejo.

Amor, contigo faria,
Chuva das tuas carícias...
E na chama ardente do Sol,
Esconderia o rubor
Das minhas puras malícias.

Na aridez do meu corpo,
Flores frescas tu plantarias,
E no lago dos teus olhos,
Feitos de límpido amor,
Contigo, eu mergulharia...

Contigo faria, amor,
A contagem das estrelas...
E, sob o abrigo da brisa,
Elas seriam, amor,
Nossas fiéis sentinelas.

Num recanto de azul fresco,
Contigo, eu ousaria
Fruir as areias virgens,
Fazer amor por amor,
Meu amor, que bom seria!

Do deserto, a travessia,
Amor, contigo faria!